Wednesday, January 3, 2007

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Vou já dizer que gosto de Rudebox, o último disco dele. Como também já gostara do anterior. A verdade é que se encontram sempre motivos de interesse nos discos de Robbie Williams pós-Take That (não é por acaso que ele cativou as colaborações de pessoas respeitáveis como os Pet Shop Boys, Stephen Duffy ou Neil Hannon, dos Divine Comedy, para os seus discos). Com Rudebox está numa estranha terra de nenhures, porque o disco é demasiado estranho para os fãs mais mainstream de Robbie (isto ouvi eu da boca de uma jovem fã, na FNAC, que desabafou para a mãe: “Isto já é muito esquisito!”) e, ao mesmo tempo, ele ainda não tem suficiente credibilidade junto dos fãs da música alternativa (alguns ainda têm o preconceito contra o moço) para que ela se dedique a descobrir o valor que Rudebox tem.

O que eu sei é que ele deve estar quase a ser excluído das listas de melhores cantigas de sempre da RFM: o rapaz está cada vez mais ácido no humor, arrojado na produção e na composição e quando cria uma cantiga mais calminha e aprazível como este She’s Madonna, enche-a de tal maneira de veneno e sátira, na letra, que ouvidos atentos perceberão que o artista pop de eleição das adolescentes tem um acentuadíssimo dark side.

A música (feita a meias com os Pet Shop Boys) é sobre a maneira como Guy Ritchie deu com os pés na namorada anterior, a apresentadora de TV Tania Trecker, para a trocar pela diva da pop, Madonna. Consegue ser um gozo não apenas aos envolvidos, mas ao espírito tablóide. O resto do disco contém experiências bem esgalhadas de reinvenção da música electrónica à anos 80 (por vezes citada explicitamente, como na faixa The 80s e na versão de Kiss Me, de Stephen Duffy) e é por estas e por outras que uma das minhas missões é dar um tabefe nas mãozinhas de quem se apressa a integrar o shôr Robbie no mesmo saco que as Melanie Cs desta vida. Cada vez mais é outro campeonato.

Tive ocasião de ver Robbie Williams ao vivo em 1998, quando fiz a cobertura do lendário Festival de Glastonbury para a Rádio Comercial. Nesse dia, percebi que o gajo tem mesmo talento. E curiosamente, percebi isso numa das suas canções aparentemente mais convencionais, a balada épica Angels. De repente havia uma multidão de espectadores de todas as inspirações - betinhos, punks, rastas, alternativos, convencionais, novos, velhos, homens, mulheres, crianças - a cantar isto em coro, rendidas à “showmanship” do Robbie. Eu que andava a saltitar pelos concertos mais alternativos e que fui ver o show dele com a arrogância de quem vai gozar com o cromo que pertenceu aos Take That, tive de engolir o sapo e admitir que este concerto dele em Glastonbury (onde ele quase fez stand-up auto-paródico) foi dos melhores que vi no Festival (já o dos Cornershop, banda que eu, na altura, estimava bastante, e que penso que tocou neste mesmo dia, foi desastroso!). Graças ao You Tube, esse momento de Glastonbury em 98, está aqui. Não devem conseguir ver-me porque, graças ao passe da BBC que tinha pendurado ao pescoço (um luxo!), eu estava de lado, pertíssimo do palco, numa zona reservada para a imprensa. Só por isso, claro. De resto eu seria facilmente identificado no meio da maralha por causa do nariz.